Tradutora de Espanhol
Tradução de espanhol. Diana Margarita. Blog sobre tradução, tradução de espanhol, gramática, literatura, cultura e entretenimento.
quinta-feira, 23 de abril de 2026
Iguais, mas diferentes
quarta-feira, 22 de abril de 2026
A importância de manter registros
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| Charge do cartunista Gervásio Castro, "Gerva" |
Dizem que “um povo que não conhece sua história está condenado a repeti-la”. Essa frase destaca a importância do aprendizado histórico. Em nosso caso, o tradutor (leia-se qualquer profissional) que não registrar seus processos está condenado a perder tempo reinventado a roda.
Sempre mantive meus arquivos de tradução organizados por
ano, cliente, mês, etc., criei tabelas de controle para os trabalhos
realizados, tabelas para controlar minha produção, tabelas de prospecção, etc.
Mas uma coisa que eu aprendi — depois de quebrar a cara várias vezes perdendo
tempo para encontrar a mesma solução — foi registrar o passo a passo para
resolver os mais diversos impasses que ocorrem no dia a dia “tradutoril”.
Vejamos alguns exemplos catados na minha pasta de “dicas”:
Como comunicar um aumento nas tarifas? (Sim, tenho uma
mensagem padronizada justificando o aumento, para não perder tempo reescrevendo.
Se bem que essa mensagem já está criando teia de aranha e poeira há muito
tempo).
Como criar uma lista de arquivos de uma pasta para fazer um orçamento?
Como extrair texto de tabelas em .pdf com o OneNote?
Comunicado de férias (outro arquivo que está criando mofo).
Criar legenda de vídeo usando Gemini (nunca usei, mas tá lá).
Dicas sobre cobrança (não precisei usar, graças a Deus!).
Dicas para se dar bem no ProZ (não funcionou para mim, acho
que o fato de eu não falar inglês atrapalha bastante a prospecção de clientes
estrangeiros e a negociação).
Diferenças entre revisão e proofeding.
Extrair imagens de um arquivo em Word.
Melhores opções para receber do exterior.
Ferramentas de revisão de textos.
Ferramentas úteis para tradutores.
E assim por diante... Tem coisas mais específicas,
configurações de programas, resolução de problemas com navegador, teclado, etc.
Também tenho uma pasta de gramática com os principais pepinos do português e do
espanhol, referências, etc. Também tenho pastas sobre coisas aleatórias como
receitas, manuais de estilo, exames médicos, etc.
Como viram, os nomes dos arquivos não estão padronizados, não
mantive o paralelismo (um verdadeiro desleixo!). Mas o importante é que quando eu
tropeçar de novo com a mesma pedra, irei para minhas pastinhas com um
sorrisinho de satisfação que não tem preço, ou melhor, tem sim: horas de
retrabalho economizadas. ;-)
terça-feira, 14 de abril de 2026
Diferenças de uso: voz ativa e voz passiva no par português-espanhol
Quando traduzimos um texto, devemos buscar a naturalidade, para que o leitor não perceba que está lendo uma tradução.
A boa tradução é aquela que parece ter sido escrita originalmente
na língua de chegada.
Para isso, devemos evitar aquela tradução dura, colada
(literal), palavra por palavra. Em vez disso, devemos tentar reproduzir as
mesmas ideias e o mesmo estilo do original, usando as estruturas e os usos da nossa
língua, para não provocar estranhamento.
Cada idioma tem usos próprios, estruturas e tendências
consolidadas que devemos dominar para conseguir uma tradução fluida e natural.
O português usa e abusa da voz passiva analítica —
aquela que se constrói com o auxílio do verbo ser + particípio —, já o
espanhol prefere o uso da voz passiva reflexa ou sintética — se +
verbo.
Vejamos uns exemplos:
O texto foi lido em voz alta = El texto se leyó
en voz alta
Foram entrevistados 200 moradores = Se entrevistó
a 200 residentes
Foram identificadas irregularidades = Se
identificaron irregularidades
Quando há agente da passiva em português, prefere-se o uso
da voz ativa em espanhol.
O texto foi lido em voz alta pelo diretor = El diretor leyó
el texto en voz alta
A televisão foi consertada pelo técnico = El técnico arregló
la televisión
Para dar ênfase no objeto direto, basta inverter a construção:
El texto lo leyó el director
La televisión la arregló el técnico
O espanhol reserva o uso da voz passiva analítica mais para
textos jornalísticos, jurídicos ou para o registro literário e histórico.
El sospechoso fue detenido por las
autoridades tras una larga persecución.
La sentencia será dictada por el tribunal
el próximo lunes.
América fue descubierta en 1492.
El estudio fue dirigido por un científico alemán.
No espanhol, assim como no português, muitas vezes a voz passiva é usada deliberadamente para ocultar o sujeito da ação.
Los manifestantes fueron dispersados con gases lacrimógenos.
Millones de euros fueron desviados a paraísos fiscales.
Las pruebas fueron destruidas antes del registro judicial.
Dos aldeas fueron bombardeadas durante la madrugada.
sexta-feira, 10 de abril de 2026
Os bastidores da publicação de uma tradução
Quando você
estiver desfrutando da leitura de autores como Oscar Wilde, Kafka, Tolstói,
Agatha Christie, Victor Hugo, Cervantes, Vargas Llosa, Elena Ferrante,
Dostoiévski, Haruki Murakami, Toni Morrison, Margaret Atwood, entre tantos
outros (ou de obras de não ficção), não se esqueça de que alguém dedicou horas
a fio à busca da palavra ou expressão exata — aquela capaz de transmitir, com
precisão, sensibilidade e naturalidade, cada escolha feita por esses grandes
autores.
Muitas vezes,
esse processo envolve riscos: perder um pouco da expressividade aqui, encontrar
soluções brilhantes ali; há momentos de dúvida, de esforço intenso, e outros de
verdadeira satisfação. Tudo isso para que você possa ter a melhor experiência
de leitura e afirmar, sem hesitação, que leu tal autor.
Por trás de
toda tradução publicada, há um grande esforço coletivo, e o tradutor é uma peça
fundamental dessa engrenagem. Para que uma obra traduzida chegue a suas mãos, o
texto passa por várias etapas, descritas, de forma geral, a seguir, podendo haver
variações de uma editora para outra:
1 –
Aquisição de direitos
A editora negocia os direitos de publicação no Brasil com o agente literário do
autor ou com a editora estrangeira responsável pelos direitos. Em alguns casos,
quando há interesse de várias editoras, pode haver um leilão.
2 – Tradução
O editor escolhe um tradutor cuja experiência e estilo dialoguem com a obra.
Cabe a esse profissional traduzir o texto para o português, buscando preservar
o sentido, o estilo, o tom e o registro do original, ao mesmo tempo que confere
naturalidade e fluidez ao texto. Isso envolve pesquisa de termos técnicos,
referências históricas e culturais e, em última instância, a tentativa de
reproduzir no leitor o mesmo efeito da obra original.
3 –
Preparação (copidesque)
Nessa etapa, o texto é revisado com atenção não apenas à correção gramatical,
mas também à consistência e à adequação aos critérios editoriais. O preparador
padroniza o texto, faz o cotejo com o original para identificar eventuais
falhas ou omissões e, quando necessário, verifica termos e informações. Também
sugere ajustes quando a tradução soa pouco natural (tradutês).
* Obras de não
ficção com conteúdo altamente especializado podem requerer um revisor técnico
ou consultor especializado, que verifique a precisão terminológica e a correção
conceitual. Essa revisão não substitui a preparação nem a revisão de provas.
4 –
Diagramação
Após a preparação (e, em alguns casos, uma revisão prévia), o texto segue para
a diagramação. O diagramador transforma o texto em um livro, aplicando o
projeto gráfico — fontes, margens, espaçamentos e hierarquia visual — para
garantir uma leitura confortável. Em seguida, é gerada a primeira prova,
geralmente em PDF, embora em alguns casos também possa ser impressa.
5 – Primeira
revisão
Realizada sobre a prova diagramada, essa etapa busca identificar erros que
passaram despercebidos anteriormente, verificar se nada foi alterado ou perdido
na diagramação e ajustar aspectos como hifenização e quebras de linha.
6 – Segunda
revisão
Após a incorporação das correções, o texto passa por uma nova leitura. O
objetivo é fazer um ajuste fino: conferir paginação, títulos, sumário, além de
eliminar problemas como “viúvas” e “órfãs” (linhas isoladas) e eventuais
deslizes de pontuação.
Concluída a
revisão de provas, o arquivo é fechado e encaminhado à gráfica em formato PDF.
Antes da impressão final, o editor pode receber uma prova impressa em tamanho
real (plotter), destinada à verificação técnica da montagem do livro, e não
mais do conteúdo textual. Uma vez aprovada essa etapa, o próximo contato será
com o livro já impresso.
terça-feira, 29 de julho de 2025
IA: I-nimiga ou A-liada?
Hoje de
manhã, eu estava lendo um texto de um tradutor espanhol que é muito irônico e
perspicaz, e ele usou a imagem acima para dizer que é assim que ele imagina o
ChatGPT por trás do autor de alguns artigos acadêmicos. Achei engraçada e
curiosa a analogia, aliás, esse cara tem um dom para achar a imagem mais
pitoresca que você possa imaginar sobre qualquer assunto, só acho que faltou
ele referenciar a fonte. Observei que tinha uma inscrição em alemão antigo, em
escrita gótica, o que atiçou minha curiosidade, já que sou uma eterna estudante
de alemão, e sei que eles tem um humor e uma agudeza muito peculiares.
Fui perguntar ao ChatGPT sobre a origem e o significado dessa gravura. Ele me
explicou que se tratava de uma gravura de Erhard Schön (c. 1530–1535), mais
específicamente Teufels Dudelsack, conhecida em inglês como Devil
playing the bagpipes, e que faz parte da coleção do The British Museum.
Trata-se de uma obra satírica, uma peça de propaganda anticlerical que
criticava o poder corrupto da Igreja Católica no contexto da Reforma
Protestante.
Joguei o
nome da gravura em inglês no Google para confirmar a veracidade da informação e,
de fato, apareceu no site de The British Museum com o nome do autor indicado
pelo ChatGPT. Não contente, pedi para o dito-cujo transcrever literalmente o
texto da gravura e, a seguir, usei o “bom e velho” Google Tradutor para pesquisar
a versão em português. Obviamente deve haver algumas imprecisões na tradução,
já que se trata de texto poético e antigo, mas eu não queria a melhor tradução
do mundo, só queria uma noção aproximada.
O texto
sugere que, antes dos reformadores, o diabo usava os clérigos como instrumentos
para espalhar suas fábulas contos e fantasias e que, agora, isso acabou.
Sinceramente,
logo que vi essa imagem, me veio à mente a metáfora “traduttore-traditore”
(tradutor-traidor), que reflete uma visão cética sobre a tradução ao sugerir
que inevitavelmente há uma perda de significado ou de fidelidade ao traduzir um
texto. Dado que não existe correspondência exata entre idiomas e culturas, a
tradução implica perdas, sim, mas isso não é traição. Traição é usar o texto
alheio para promover as própria ideias ou o próprio estilo.
Num momento
em que a inteligência artificial está no centro das discussões nos grupos de
tradutores nas redes sociais, me incomoda a veemência com que se critica o uso
de tecnologias na tradução, principalmente o uso de inteligência artificial —não
como fim, mas como meio, diga-se de passagem —, mas se esquece que o ego do
tradutor também é um bichinho perigoso que pode levá-lo a subverter o sentido
do original em nome da própria ideologia, ou ainda, sob o pretexto de melhorar
a fluidez ou o estilo. Ou seja, quando se trata de tradução, o mero uso da
inteligência natural não é garantia de idoneidade. Ora intencionalmente, ora
acidentalmente, o tradutor também falha.
Não é minha
intenção aqui defender nem condenar o uso de IA, apenas lembrar que a
tecnologia é uma ferramenta em nossa mão: nós a utilizamos para o bem ou para o
mal. Parafraseando Paracelso, um famoso médico e alquimista alemão da época da
Renascença: “A diferença entre o veneno e o remédio é a dose”.
quinta-feira, 12 de junho de 2025
Feliz dia dos namorados!
Ontem, meu marido e eu assistimos ao filme Orgulho e Preconceito pela quarta vez, e, já que hoje é o Dia dos Namorados, gostaria de aproveitar a ocasião para escrever uma reflexão sobre o romantismo.
Por que gosto
tanto do livro de Jane Austen e do filme baseado nele? Porque é aquele tipo de
romance em que a atração entre as personagens vai crescendo aos poucos, aliás,
ela começa a partir de uma primeira impressão negativa, de uma espécie de
aversão. No baile no qual eles se encontram pela primeira vez, Mr. Darcy recusa
o convite de Elizabeth Bennet (Lizzi), para dançar. Mais tarde ela escuta Mr. Darcy
dizer ao amigo que não a considera o suficientemente atraente para ele.
Mr. Darcy
tem uma posição social superior e alimenta um forte preconceito em relação à família
Bennet, à forma como eles se comportam, com escasso recato e refinamento. Mr.
Darcy e Lizzi acabam se encontrando casualmente em várias ocasiões, e ele
começa a apreciar a sagacidade e o orgulho de Lizzi que defende sua posição social
e sua família com comentários inteligentes e sarcásticos, que fazem Darcy questionar
suas convicções.
A fórmula mágica que torna essa história de amor tão envolvente é o fato de
eles se apaixonarem aos poucos, conforme vão vencendo o preconceito inicial e descobrindo
no outro seu verdadeiro valor.
Hoje em dia
nós vemos uma disputa entre homens e mulheres para ver quem vai chegar primeiro,
quem vai se dar bem, quem vai sair por cima, parece que se trata mais de uma competição por
poder do que de uma conquista. E também vemos essa disputa por quantidade, para ver
que fica com mais pessoas, quem ganha mais likes... E a moçada jovem indo com
muita sede ao pote, pulando as etapas da conquista, de trocar olhares, pegar na
mão, pedir em namoro, tudo aquilo que é tão instigante e que torna a conquista
mais saborosa.
Hoje a
maioria quer ir logo para a cama para depois se conhecerem, invertendo as
etapas. Tratando com desdém o que deveria ser a cereja do bolo. É a cultura do
desapego, como se apaixonar-se fosse algo ofensivo, humilhante. Hoje reina um individualismo
nocivo que impede a pessoa de olhar para outra coisa que não seja o próprio
umbigo.
segunda-feira, 9 de junho de 2025
A leitura em voz alta como ferramenta de revisão
Todo tradutor profissional sabe que, antes de entregar uma tradução, é importante fazer uma revisão cuidadosa do texto final. Para isso dispomos de diversas ferramentas que ajudam a garantir a qualidade técnica, a correção linguística e a consistência da tradução, como a função de QA (Quality Assurance) de sua Cat Tool, o assistente de escrita inteligente integrado ao Word, que identifica, entre outras coisas, erros ortográficos, gramaticais, de estilo, de construção, linguagem ofensiva, e ainda, o recurso de leitura em voz alta também disponível no Word, mas que também pode ser encontrado em diversos aplicativos ou plugins de navegador.
Aqui vou
falar da última opção, que é também a última etapa do meu processo de revisão:
a leitura em voz alta combinada com a leitura visual. Em meu caso, uso o
recurso do Word disponível na guia “Revisão”, opção “Ler em Voz Alta”, que permite
ainda personalizar a leitura mediante o ajuste de velocidade e a seleção da voz
do leitor.
Por que
gosto tanto desse recurso? Porque depois de horas trabalhando num texto na tela
do computador, nossa mente e visão já estão tão cansadas e familiarizadas com o
que está escrito que não conseguem identificar os erros, porque nosso cérebro,
sabendo o que deveria estar escrito, completa as lacunas e corrige pequenos
erros, enganando nossa visão. E é aí que entra a leitura em voz alta. Ao
combinar dois métodos diferentes para processar a informação — leitura visual e
leitura auditiva —, conseguimos identificar erros que poderiam passar batidos
se utilizássemos somente a visão. Nosso ouvido capta os erros que nossos olhos
deixaram passar. Além disso, nossa concentração aumenta ao evitar a distração
com ruídos externos e potenciamos nossa percepção da “musicalidade” do texto, o
que nos permite identificar cacofonia, isto é, a repetição de sons que provocam
eco ou sons desagradáveis resultantes da junção de palavras: “... a boca dela”
(cadela); a repetição excessiva de uma palavra, erros de pontuação, trechos truncados
ou muito longos e confusos. Ou seja, a leitura em voz alta dispara outros alertas
em nosso modo revisor. Eu recomendo usar a voz de um terceiro em lugar da própria
voz para evitar as armadilhas de nosso cérebro das quais falamos antes.
Ao revisar uma
tradução própria, também é importante deixar o texto “descansar”, procurar uma
posição confortável, fazer pausas regulares, diminuir o brilho da tela, aumentar
o tamanho da fonte, usar óculos de leitura e trabalhar com iluminação adequada,
sem reflexos, num ambiente silencioso e calmo.
Você já utiliza
esse recurso para revisar suas traduções? Tem alguma outra dica para revisar
uma tradução própria?






