quarta-feira, 22 de abril de 2026

A importância de manter registros

Charge do cartunista Gervásio Castro, "Gerva"

Dizem que “um povo que não conhece sua história está condenado a repeti-la”. Essa frase destaca a importância do aprendizado histórico. Em nosso caso, o tradutor (leia-se qualquer profissional) que não registrar seus processos está condenado a perder tempo reinventado a roda.

Sempre mantive meus arquivos de tradução organizados por ano, cliente, mês, etc., criei tabelas de controle para os trabalhos realizados, tabelas para controlar minha produção, tabelas de prospecção, etc. Mas uma coisa que eu aprendi — depois de quebrar a cara várias vezes perdendo tempo para encontrar a mesma solução — foi registrar o passo a passo para resolver os mais diversos impasses que ocorrem no dia a dia “tradutoril”.

Vejamos alguns exemplos catados na minha pasta de “dicas”:

Como comunicar um aumento nas tarifas? (Sim, tenho uma mensagem padronizada justificando o aumento, para não perder tempo reescrevendo. Se bem que essa mensagem já está criando teia de aranha e poeira há muito tempo).

Como criar uma lista de arquivos de uma pasta para fazer um orçamento?

Como extrair texto de tabelas em .pdf com o OneNote?

Comunicado de férias (outro arquivo que está criando mofo).

Criar legenda de vídeo usando Gemini (nunca usei, mas tá lá).

Dicas sobre cobrança (não precisei usar, graças a Deus!).

Dicas para se dar bem no ProZ (não funcionou para mim, acho que o fato de eu não falar inglês atrapalha bastante a prospecção de clientes estrangeiros e a negociação).

Diferenças entre revisão e proofeding.

Extrair imagens de um arquivo em Word.

Melhores opções para receber do exterior.

Ferramentas de revisão de textos.

Ferramentas úteis para tradutores.

E assim por diante... Tem coisas mais específicas, configurações de programas, resolução de problemas com navegador, teclado, etc. Também tenho uma pasta de gramática com os principais pepinos do português e do espanhol, referências, etc. Também tenho pastas sobre coisas aleatórias como receitas, manuais de estilo, exames médicos, etc.

Como viram, os nomes dos arquivos não estão padronizados, não mantive o paralelismo (um verdadeiro desleixo!). Mas o importante é que quando eu tropeçar de novo com a mesma pedra, irei para minhas pastinhas com um sorrisinho de satisfação que não tem preço, ou melhor, tem sim: horas de retrabalho economizadas. ;-)

 

terça-feira, 14 de abril de 2026

Diferenças de uso: voz ativa e voz passiva no par português-espanhol



Quando traduzimos um texto, devemos buscar a naturalidade, para que o leitor não perceba que está lendo uma tradução.

A boa tradução é aquela que parece ter sido escrita originalmente na língua de chegada.

Para isso, devemos evitar aquela tradução dura, colada (literal), palavra por palavra. Em vez disso, devemos tentar reproduzir as mesmas ideias e o mesmo estilo do original, usando as estruturas e os usos da nossa língua, para não provocar estranhamento.

Cada idioma tem usos próprios, estruturas e tendências consolidadas que devemos dominar para conseguir uma tradução fluida e natural.

O português usa e abusa da voz passiva analítica — aquela que se constrói com o auxílio do verbo ser + particípio —, já o espanhol prefere o uso da voz passiva reflexa ou sintéticase + verbo.

 

Vejamos uns exemplos:

O texto foi lido em voz alta = El texto se leyó en voz alta

Foram entrevistados 200 moradores = Se entrevistó a 200 residentes

Foram identificadas irregularidades = Se identificaron irregularidades

 

Quando há agente da passiva em português, prefere-se o uso da voz ativa em espanhol.

O texto foi lido em voz alta pelo diretor = El diretor leyó el texto en voz alta

A televisão foi consertada pelo técnico = El técnico arregló la televisión

 

Para dar ênfase no objeto direto, basta inverter a construção:

El texto lo leyó el director

La televisión la arregló el técnico

 

O espanhol reserva o uso da voz passiva analítica mais para textos jornalísticos, jurídicos ou para o registro literário e histórico.

El sospechoso fue detenido por las autoridades tras una larga persecución.

La sentencia será dictada por el tribunal el próximo lunes.

América fue descubierta en 1492.

El estudio fue dirigido por un científico alemán.


No espanhol, assim como no português, muitas vezes a voz passiva é usada deliberadamente para ocultar o sujeito da ação.

Los manifestantes fueron dispersados con gases lacrimógenos.

Millones de euros fueron desviados a paraísos fiscales.

Las pruebas fueron destruidas antes del registro judicial.

Dos aldeas fueron bombardeadas durante la madrugada.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Os bastidores da publicação de uma tradução


Quando você estiver desfrutando da leitura de autores como Oscar Wilde, Kafka, Tolstói, Agatha Christie, Victor Hugo, Cervantes, Vargas Llosa, Elena Ferrante, Dostoiévski, Haruki Murakami, Toni Morrison, Margaret Atwood, entre tantos outros (ou de obras de não ficção), não se esqueça de que alguém dedicou horas a fio à busca da palavra ou expressão exata — aquela capaz de transmitir, com precisão, sensibilidade e naturalidade, cada escolha feita por esses grandes autores.

Muitas vezes, esse processo envolve riscos: perder um pouco da expressividade aqui, encontrar soluções brilhantes ali; há momentos de dúvida, de esforço intenso, e outros de verdadeira satisfação. Tudo isso para que você possa ter a melhor experiência de leitura e afirmar, sem hesitação, que leu tal autor.

Por trás de toda tradução publicada, há um grande esforço coletivo, e o tradutor é uma peça fundamental dessa engrenagem. Para que uma obra traduzida chegue a suas mãos, o texto passa por várias etapas, descritas, de forma geral, a seguir, podendo haver variações de uma editora para outra:

1 – Aquisição de direitos
A editora negocia os direitos de publicação no Brasil com o agente literário do autor ou com a editora estrangeira responsável pelos direitos. Em alguns casos, quando há interesse de várias editoras, pode haver um leilão.

2 – Tradução
O editor escolhe um tradutor cuja experiência e estilo dialoguem com a obra. Cabe a esse profissional traduzir o texto para o português, buscando preservar o sentido, o estilo, o tom e o registro do original, ao mesmo tempo que confere naturalidade e fluidez ao texto. Isso envolve pesquisa de termos técnicos, referências históricas e culturais e, em última instância, a tentativa de reproduzir no leitor o mesmo efeito da obra original.

3 – Preparação (copidesque)
Nessa etapa, o texto é revisado com atenção não apenas à correção gramatical, mas também à consistência e à adequação aos critérios editoriais. O preparador padroniza o texto, faz o cotejo com o original para identificar eventuais falhas ou omissões e, quando necessário, verifica termos e informações. Também sugere ajustes quando a tradução soa pouco natural (tradutês).

* Obras de não ficção com conteúdo altamente especializado podem requerer um revisor técnico ou consultor especializado, que verifique a precisão terminológica e a correção conceitual. Essa revisão não substitui a preparação nem a revisão de provas.

4 – Diagramação
Após a preparação (e, em alguns casos, uma revisão prévia), o texto segue para a diagramação. O diagramador transforma o texto em um livro, aplicando o projeto gráfico — fontes, margens, espaçamentos e hierarquia visual — para garantir uma leitura confortável. Em seguida, é gerada a primeira prova, geralmente em PDF, embora em alguns casos também possa ser impressa.

5 – Primeira revisão
Realizada sobre a prova diagramada, essa etapa busca identificar erros que passaram despercebidos anteriormente, verificar se nada foi alterado ou perdido na diagramação e ajustar aspectos como hifenização e quebras de linha.

6 – Segunda revisão
Após a incorporação das correções, o texto passa por uma nova leitura. O objetivo é fazer um ajuste fino: conferir paginação, títulos, sumário, além de eliminar problemas como “viúvas” e “órfãs” (linhas isoladas) e eventuais deslizes de pontuação.

Concluída a revisão de provas, o arquivo é fechado e encaminhado à gráfica em formato PDF. Antes da impressão final, o editor pode receber uma prova impressa em tamanho real (plotter), destinada à verificação técnica da montagem do livro, e não mais do conteúdo textual. Uma vez aprovada essa etapa, o próximo contato será com o livro já impresso.

A satisfação do leitor é o que move toda essa engrenagem, e, por trás de cada página, há um trabalho cuidadoso para que a leitura aconteça da forma mais natural possível.


Veja mais sobre o processo editorial em:

https://revisaoparaque.com/blog/quer-ter-um-livro-de-qualidade-siga-estes-passos/
A construção do livro, de Emanuel Araújo

terça-feira, 29 de julho de 2025

IA: I-nimiga ou A-liada?

 


Hoje de manhã, eu estava lendo um texto de um tradutor espanhol que é muito irônico e perspicaz, e ele usou a imagem acima para dizer que é assim que ele imagina o ChatGPT por trás do autor de alguns artigos acadêmicos. Achei engraçada e curiosa a analogia, aliás, esse cara tem um dom para achar a imagem mais pitoresca que você possa imaginar sobre qualquer assunto, só acho que faltou ele referenciar a fonte. Observei que tinha uma inscrição em alemão antigo, em escrita gótica, o que atiçou minha curiosidade, já que sou uma eterna estudante de alemão, e sei que eles tem um humor e uma agudeza muito peculiares.

Fui perguntar ao ChatGPT sobre a origem e o significado dessa gravura. Ele me explicou que se tratava de uma gravura de Erhard Schön (c. 1530–1535), mais específicamente Teufels Dudelsack, conhecida em inglês como Devil playing the bagpipes, e que faz parte da coleção do The British Museum. Trata-se de uma obra satírica, uma peça de propaganda anticlerical que criticava o poder corrupto da Igreja Católica no contexto da Reforma Protestante.

Joguei o nome da gravura em inglês no Google para confirmar a veracidade da informação e, de fato, apareceu no site de The British Museum com o nome do autor indicado pelo ChatGPT. Não contente, pedi para o dito-cujo transcrever literalmente o texto da gravura e, a seguir, usei o “bom e velho” Google Tradutor para pesquisar a versão em português. Obviamente deve haver algumas imprecisões na tradução, já que se trata de texto poético e antigo, mas eu não queria a melhor tradução do mundo, só queria uma noção aproximada.

Ei-la:

O texto sugere que, antes dos reformadores, o diabo usava os clérigos como instrumentos para espalhar suas fábulas contos e fantasias e que, agora, isso acabou.

Sinceramente, logo que vi essa imagem, me veio à mente a metáfora “traduttore-traditore” (tradutor-traidor), que reflete uma visão cética sobre a tradução ao sugerir que inevitavelmente há uma perda de significado ou de fidelidade ao traduzir um texto. Dado que não existe correspondência exata entre idiomas e culturas, a tradução implica perdas, sim, mas isso não é traição. Traição é usar o texto alheio para promover as própria ideias ou o próprio estilo.

Num momento em que a inteligência artificial está no centro das discussões nos grupos de tradutores nas redes sociais, me incomoda a veemência com que se critica o uso de tecnologias na tradução, principalmente o uso de inteligência artificial —não como fim, mas como meio, diga-se de passagem —, mas se esquece que o ego do tradutor também é um bichinho perigoso que pode levá-lo a subverter o sentido do original em nome da própria ideologia, ou ainda, sob o pretexto de melhorar a fluidez ou o estilo. Ou seja, quando se trata de tradução, o mero uso da inteligência natural não é garantia de idoneidade. Ora intencionalmente, ora acidentalmente, o tradutor também falha.

Não é minha intenção aqui defender nem condenar o uso de IA, apenas lembrar que a tecnologia é uma ferramenta em nossa mão: nós a utilizamos para o bem ou para o mal. Parafraseando Paracelso, um famoso médico e alquimista alemão da época da Renascença: “A diferença entre o veneno e o remédio é a dose”.

Para terminar, resolvi brincar um pouco com a tecnologia da inteligência artificial para dar vida à gravura. Eis o resultado:






quinta-feira, 12 de junho de 2025

Feliz dia dos namorados!

Ontem, meu marido e eu assistimos ao filme Orgulho e Preconceito pela quarta vez, e, já que hoje é o Dia dos Namorados, gostaria de aproveitar a ocasião para escrever uma reflexão sobre o romantismo.

Por que gosto tanto do livro de Jane Austen e do filme baseado nele? Porque é aquele tipo de romance em que a atração entre as personagens vai crescendo aos poucos, aliás, ela começa a partir de uma primeira impressão negativa, de uma espécie de aversão. No baile no qual eles se encontram pela primeira vez, Mr. Darcy recusa o convite de Elizabeth Bennet (Lizzi), para dançar. Mais tarde ela escuta Mr. Darcy dizer ao amigo que não a considera o suficientemente atraente para ele.

Mr. Darcy tem uma posição social superior e alimenta um forte preconceito em relação à família Bennet, à forma como eles se comportam, com escasso recato e refinamento. Mr. Darcy e Lizzi acabam se encontrando casualmente em várias ocasiões, e ele começa a apreciar a sagacidade e o orgulho de Lizzi que defende sua posição social e sua família com comentários inteligentes e sarcásticos, que fazem Darcy questionar suas convicções.

A fórmula mágica que torna essa história de amor tão envolvente é o fato de eles se apaixonarem aos poucos, conforme vão vencendo o preconceito inicial e descobrindo no outro seu verdadeiro valor.

Hoje em dia nós vemos uma disputa entre homens e mulheres para ver quem vai chegar primeiro, quem vai se dar bem, quem vai sair por cima, parece que se trata mais de uma competição por poder do que de uma conquista. E também vemos essa disputa por quantidade, para ver que fica com mais pessoas, quem ganha mais likes... E a moçada jovem indo com muita sede ao pote, pulando as etapas da conquista, de trocar olhares, pegar na mão, pedir em namoro, tudo aquilo que é tão instigante e que torna a conquista mais saborosa.

Hoje a maioria quer ir logo para a cama para depois se conhecerem, invertendo as etapas. Tratando com desdém o que deveria ser a cereja do bolo. É a cultura do desapego, como se apaixonar-se fosse algo ofensivo, humilhante. Hoje reina um individualismo nocivo que impede a pessoa de olhar para outra coisa que não seja o próprio umbigo.  

É por isso que a história de Orgulho e Preconceito me toca, porque as personagens conseguem vencer dois sentimentos soberbos que as cegam, conseguem superá-los ao enxergarem além das aparências e se rederem um ao outro. Já não se trata de uma batalha, já não é a vitória que conta, mas sim a rendição

segunda-feira, 9 de junho de 2025

A leitura em voz alta como ferramenta de revisão

Todo tradutor profissional sabe que, antes de entregar uma tradução, é importante fazer uma revisão cuidadosa do texto final. Para isso dispomos de diversas ferramentas que ajudam a garantir a qualidade técnica, a correção linguística e a consistência da tradução, como a função de QA (Quality Assurance) de sua Cat Tool, o assistente de escrita inteligente integrado ao Word, que identifica, entre outras coisas, erros ortográficos, gramaticais, de estilo, de construção, linguagem ofensiva, e ainda, o recurso de leitura em voz alta também disponível no Word, mas que também pode ser encontrado em diversos aplicativos ou plugins de navegador.

Aqui vou falar da última opção, que é também a última etapa do meu processo de revisão: a leitura em voz alta combinada com a leitura visual. Em meu caso, uso o recurso do Word disponível na guia “Revisão”, opção “Ler em Voz Alta”, que permite ainda personalizar a leitura mediante o ajuste de velocidade e a seleção da voz do leitor.



Por que gosto tanto desse recurso? Porque depois de horas trabalhando num texto na tela do computador, nossa mente e visão já estão tão cansadas e familiarizadas com o que está escrito que não conseguem identificar os erros, porque nosso cérebro, sabendo o que deveria estar escrito, completa as lacunas e corrige pequenos erros, enganando nossa visão. E é aí que entra a leitura em voz alta. Ao combinar dois métodos diferentes para processar a informação — leitura visual e leitura auditiva —, conseguimos identificar erros que poderiam passar batidos se utilizássemos somente a visão. Nosso ouvido capta os erros que nossos olhos deixaram passar. Além disso, nossa concentração aumenta ao evitar a distração com ruídos externos e potenciamos nossa percepção da “musicalidade” do texto, o que nos permite identificar cacofonia, isto é, a repetição de sons que provocam eco ou sons desagradáveis resultantes da junção de palavras: “... a boca dela” (cadela); a repetição excessiva de uma palavra, erros de pontuação, trechos truncados ou muito longos e confusos. Ou seja, a leitura em voz alta dispara outros alertas em nosso modo revisor. Eu recomendo usar a voz de um terceiro em lugar da própria voz para evitar as armadilhas de nosso cérebro das quais falamos antes.

Ao revisar uma tradução própria, também é importante deixar o texto “descansar”, procurar uma posição confortável, fazer pausas regulares, diminuir o brilho da tela, aumentar o tamanho da fonte, usar óculos de leitura e trabalhar com iluminação adequada, sem reflexos, num ambiente silencioso e calmo.

Você já utiliza esse recurso para revisar suas traduções? Tem alguma outra dica para revisar uma tradução própria?

Deixe seus comentários! 

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Toda literatura tem um quê de autoajuda?

Confesso que antigamente eu olhava para a literatura de autoajuda com certo desdém, como se fosse uma escrita superficial através da qual o autor diz aquilo que o leitor quer ouvir, a minha desconfiança aumentava à medida que eu via esse tipo de livro ocupar cada vez mais espaço nas prateleiras das livrarias prometendo uma solução mágica para os problema mais complexos, sejam eles financeiros, de saúde, de relacionamento, de autoestima ou espiritualidade.

É claro que é preciso separar o joio do trigo, assim como em todas as outras categorias literárias há os livros bons e os ruins, há aqueles que só pretendem nos vender promessas milagrosas, mas também há aqueles escritos com ética e responsabilidade, por profissionais comprometidos ou por pessoas que desejam compartilhar uma experiência pessoal para ajudar outras pessoas que possam estar enfrentando dificuldades semelhantes. Hoje vejo que há muitos bons livros de autoajuda e motivacionais baseados em experiências pessoais, pesquisas e evidências, que promovem a reflexão e a autonomia do leitor. Mas, o verdadeiro valor desse tipo de literatura não está tanto no conteúdo, mas sim na reação que desperta no leitor, se o texto conseguir impactá-lo ou confortá-lo de alguma forma, promover uma mudança positiva, isso é o que de fato importa.

Édipo e a Esfinge, de Gustave Moreau

O que me levou a escrever este texto é que me dei conta de que toda literatura têm em si mesma um quê de autoajuda. A origem da literatura ocidental é atribuída às obras de Homero, a Odisseia e a Ilíada, na Antiguidade Clássica com a literatura greco-latina. Nas tragédias gregas existe o conceito de catarse, definido por Aristóteles como um processo de purificação emocional do público ao assistir à representação de uma tragédia. O termo "catarse" deriva do grego "katharsis", que significa "limpeza" ou "purificação". As tragédias retratavam personagens nobres e heroicos que enfrentavam grandes conflitos e dilemas internos e externos como a luta entre o destino e a vontade humana, a guerra e a disputa pelo poder. Um exemplo de tragédia é a de Édipo rei, que passa a vida tentando fugir do destino, mas acaba derrotado por ele. O objetivo era fazer que o público, ao assistir às representações, lidasse com emoções intensas de terror e piedade para libertar-se delas e experimentar uma sensação de alívio, conforto e renovação.

Narciso, de Caravaggio
Quando lemos um livro, ocorre algo parecido: colocamo-nos na pele das personagens e experimentamos seus conflitos internos, seus sofrimentos, suas angústias, e imaginamos o que faríamos no lugar delas, que decisões tomaríamos, qual seria nossa atitude. Muitas vezes questionamos nossos preconceitos, desenvolvemos a empatia, mudamos de opinião, reconsideramos nossas convicções e nos autoavaliamos. Já dizia o escritor espanhol Carlos Ruiz Zafón que “os livros são espelhos: neles só vemos o que carregamos dentro”. Para um verdadeiro crescimento, no entanto, é necessário livrar-se desse narcisismo de querer enxergar a nós mesmos em tudo que vemos ou lemos, e perceber que no enredo da vida nem sempre somos os protagonistas, muitas vezes não passamos de coadjuvantes ou de meros figurantes, e nem por isso somos insignificantes ou prescindíveis.